segunda-feira, 4 de abril de 2016

Dom Williamson e o dogma da infalibilidade

Entre as polêmicas envolvendo Dom Williamson, gostaria de comentar sobre a opinião do Bispo a respeito do dogma da infalibilidade. Trata-se de um assunto muito sério, pois envolvem questões dogmáticas e, não sendo necessário explicar isso aqui, são por isso de aceitação obrigatória dos católicos.
O Comentário Eleison que trata do assunto pode ser lido aqui.

Antes de comentar o artigo de Dom Williamson, colocamos a definição do dogma:

“Ensinamos e definimos ser dogma divinamente revelado que: o Pontífice Romano quando, desempenhando o cargo de Pastor e Doutor de todos os cristãos, com a sua suprema autoridade apostólica define que um doutrina relativa à fé e aos costumes deve ser criada pela Igreja universal, em virtude da assistência divina que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro,  goza da infalibilidade com que o divino Redentor dotou a sua Igreja ao definir as doutrinas de fé e costumes; e que, portanto, as definições do romano Pontífice são, por si, irreformáveis e não em virtude do consentimento da Igreja [1]. Se alguém, o que não praza a Deus, ousar contradizer esta nossa definição, seja anátema.” (grifos meus)

Vamos ao comentário então:

"Nem os liberais nem os sedevacantistas gostam que se diga que eles são como cara e coroa de uma mesma moeda, mas isto é verdade. Nenhum deles, por exemplo, concebe uma terceira alternativa. Vejam como Dom Fellay, em sua Carta aos Três Bispos de 14 de abril de 2012, não conseguia enxergar nenhuma alternativa ao seu liberalismo que não fosse o sedevacantismo. Em contrapartida, para muitos sedevacantistas, se um sujeito aceita que qualquer um dos papas conciliares tenha sido realmente Papa, só pode ser então um liberal; e se alguém critica o sedevacantismo, então está a promover o liberalismo. Mas não é assim, absolutamente!"

Aqui concordo em absoluto com Dom Williamson. Também entendo que o liberalismo e o sedevacantismo são as duas faces da mesma moeda, pelo menos quanto a origem do problema. Mas enfim, não vou debater sedevacantismo aqui, pois não é esse o objetivo do modesto artigo e além do que não é um assunto que domino. Só deixarei um pequeno comentário: Antes sedevacantista, pois sim entendo que é uma possibilidade real na Igreja, do que aderir a Roma modernista integralmente. Porém, entre os dois, também fico com a terceira via deixada por Msr Lefebvre.

Dom Williamson continua:

"Por que não? Porque ambos estão cometendo o mesmo erro de exagerar a infalibilidade do Papa. Por quê? Seria porque eles são homens modernos que acreditam mais nas pessoas do que nas instituições? E porque deveria ser esta uma característica do homem moderno? [...]

Aqui, começa um pequeno problema: "Seria porque eles são homens modernos que acreditam mais nas pessoas do que nas instituições?" Não podemos dizer, diante da análise do dogma, que o erro é confiar antes no homem. Nós suspeitamos do alto clero atual da Igreja, entre eles a figura do Santo Padre, porque estes últimos, eles mesmos abandonaram o ensino bimilenar da Igreja. Contradizem os papas anteriores. Contradizem a doutrina de dois mil anos da Igreja. Bom, essa afirmação por si só não seria suficiente para desacreditar Dom Williamson, mas o bispo continua abaixo:

"Assim, é compreensível que os católicos modernos tendam a colocar muita fé no Papa e muito pouca na Igreja, e aqui está a resposta ao leitor que me perguntou por que eu não escrevo sobre a infalibilidade da mesma maneira que fazem os manuais clássicos de teologia católica. Esses manuais são maravilhosos ao seu modo, mas foram todos escritos antes do Vaticano II, e tendem a atribuir ao Papa uma infalibilidade que pertence à Igreja. Por exemplo, a infalibilidade, em seu ápice, é passível de ser apresentada nesses manuais como uma definição solene do Papa, ou do Papa com o Concílio, mas de qualquer modo, do Papa. O dilema liberal-sedevacantista é, por assim dizer, um castigo, a consequência dessa tendência de superestimar a pessoa e subestimar a instituição, pois a Igreja não é uma instituição meramente humana.[grifos meus]

Dom Williamson estranhamente diz que os manuais de teologia católica que falam sobre o dogma são maravilhosos, "MAS foram escritos antes do Vaticano II". Ora bolas, graças a Deus foram escritos antes do Vaticano II e, por consequencia, uma chance muito maior de não estarem contaminados de liberalismo. Porém, de acordo com estes manuais que cita Dom Williamson, assim como explicado pelo Padre Leonel Franca a definição do dogma é contrária a isto, vejamos:

"Onde, porém, reside essa infalibilidade? Qual é o seu Órgão autentico ? A razão iluminada pela fé responde:  PASSIVAMENTE, em toda a Igreja que recebe e  crê as verdades que lhe são propostas; ATIVAMENTE, no seu Chefe, pastor supremo, no Pontífice romano, sucessor daquele a quem Cristo confiou a missão de confirmar os seus irmãos na fé" [destaques do autor]

Vejamos que o de acordo com o explicado por Padre Leonel Franca, a infalibilidade está ATIVAMENTE em Pedro e PASSIVAMENTE na Igreja. A Igreja é infálivel porque Pedro é infalível. Dom Williamson diz o contrário, que a infalibilidade está na Igreja e que isso seria um "castigo, a consequencia de superestimar a pessoa e subestimar a instituição." Ora bolas, então para combatermos o sedevacantismo vamos agora inverter a definição dogmática do Vaticano I? Voltemos a definição dogmática: "em virtude da assistência divina que lhe foi prometida na pessoa de S. Pedro" e mais "as definições do romano Pontífice são, por si, irreformáveis". Está bem claro, A assistência divina foi dada a São Pedro e assim O Padre Leonel Franca continua explicando:

“Cada Palavra neste documento tem alto valor significativo, tudo é pesado e meditado. Com rara felicidade de expressão e propriedades de termos, a grande assembleia condensou, precisou e ilustrou admiravelmente o dogma católico. Não faremos senão expender a luminosa definição conciliar.”

“Dela, antes de tudo, se infere a verdadeira noção da inefabilidade: privilégio sobrenatural, firmado na assistência divina prometida por Jesus Cristo ao Papa, de não errar todas as vezes que, falando livremente ex-cathedra, como supremo doutor da Igreja universal, define que esta ou aquela doutrina concernente à fé ou aos costumes pertence ao depósito das verdades reveladas.”

“Trata-se, pois, de um previlégio concedido não a pessoa particular do Papa, mas a sua função, ao seu cargo. Não é em proveito do homem, é em benefício da Igreja que o Papa é infalível. Na esfera da sua atividade particular, o pontífice fica sujeito ao erro no campo intelectual e à pecabilidade no campo moral.”

Observemos que na nota de rodapé, citada abaixo, Padre Leonel  adverte que as definições não são infalíveis porque a Igreja adere a elas, mas a Igreja adere porque são infalíveis. Adverte ainda que agiam acreditando nesse erro os galicanos [2].
Assim, volto a repetir, vamos agora, para combater o sedevacantismo, usar a livre-interpretação para elaborarmos nossas refutações? Por favor, como dizia um antigo chefe:
"Me inclui fora dessa."(sic)

Notas
[1] “Esta última cláusula foi inserida contra o erro dos galicanos que admitiam a inefabilidade das definições pontifícias quando a elas se unia o consentimento da Igreja. Confundiam a causa com o efeito. Não são infalíveis as definições do Papa porque a elas adere a Igreja, mas a Igreja presta-lhes o seu assentimento porque são infalíveis. “

[2] Separatistas franceses que debaixo do governo de Luiz XIV diziam entre outras coisas que as definições referentes à fé não podem sofrer reforma sem que haja o consenso de toda a Igreja.

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